Notícia Infância

Excesso de tecnologia afeta a saúde física e mental das crianças


Publicado em 12.01.2018 , às 18:35

Por TV Jornal / NE10

EBC

A tecnologia está cada vez mais e mais cedo presente no cotidiano das crianças. As consequências do excesso, no entanto, precisam ser levadas em conta pelos pais. Para orientar médicos, pais e educadores sobre o assunto, a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) divulgou um manual de sobre a saúde de crianças e adolescentes na era digital. 

No texto, entre as consequências elencadas pelo uso excessivo de tecnologia, estão o aumento da ansiedade, a dificuldade de estabelecer relações em sociedade, os transtornos de sono e de alimentação, o baixo rendimento escolar e as lesões por esforço repetitivo. Além disso, o estímulo à sexualização precoce, a adesão ao cyberbullying, o comportamento violento ou agressivo e a exposição precoce a drogas também aparecem como efeitos danosos para a saúde individual e coletiva, com graves reflexos para o ambiente familiar e escolar.

Segundo a pediatra e homeopata Márcia Varejão, o número de crianças que estão chegando aos consultórios com distúrbios de ansiedade ou atenção e até mesmo atraso no desenvolvimento motor causados pelo exagero no consumo de tecnologia está crescendo. "Algumas vêm até nós com a atenção tão dirigida ao eletrônico que apresentam atraso no desenvolvimento tanto da fala, quanto motor grosso, ou seja, são crianças que não correm, não exploram o ambiente, não se comunicam e assim não desenvolvem a fala", explica a médica.

A médica pediatra reforça, no entanto, nem todos os sintomas do uso excessivo de tecnologia são ligados a distúrbios neurológicos. "Com o aparelho eletrônico, a criança fica o tempo todo alerta e, muitas vezes, competindo, gerando uma situação contínua de ansiedade. Podendo comprometer o sono", explica a pediatra.

Estabelecendo limites no uso de aparelhos eletrônicos 

SBP fez uma série de recomendações sobre a saúde de crianças e adolescentes na era digitalFoto: EBC
“Existem benefícios e prejuízos advindos dessas tecnologias. O desafio é saber usá-las na dose certa”, explica a presidente da SBP, Luciana Rodrigues da Silva. Para a presidente da sociedade, as crianças e adolescentes devem estar dentro de um plano de “dieta midiática”, que leva em conta a idade, o desenvolvimento cognitivo e a maturidade da cada um. Para isso, os pequenos precisam ser orientados sobre como se proteger e, além de ter conhecimento sobre todos os riscos. A presidente, no entanto, ressalta que, como em qualquer plano de reeducação física ou alimentar, pais, responsáveis e professores devem estar engajados para que os bons resultados apareçam. 

No que diz respeito à crianças com menos de dois anos, o manual da SBP aconselha que seja evitado ou até proibida a exposição passiva às telas digitais, com acesso a conteúdos inapropriados de filmes e vídeos. O veto deve ocorrer, principalmente, durante a hora das refeições ou nas horas que antecedem o sono. No caso dos pequenos com idades entre dois e cinco anos, a sociedade afirma que a exposição deve ser de, no máximo, uma hora por dia.

Por não conseguirem separar a fantasia da realidade, a orientação é que as crianças até seis anos sejam protegidas da violência virtual. Para os menores de 10 anos, fazer uso de televisão ou computador nos seus próprios quartos não é recomendado. “A orientação visa evitar que as crianças fiquem vulneráveis a conteúdos inapropriados ou, ainda, que tenham acesso facilitado às redes de pedofilia e exploração sexual online, compra e uso de drogas, pensamentos ou gestos de autoagressão e suicídio, além das ‘brincadeiras’ ou ‘desafios’ online que podem ocasionar consequências graves”, comenta a médica Evelyn Eisenstein, que coordenou a elaboração do Manual da SBP. 

No caso dos adolescentes, também não é recomendando o isolamento em seus quartos. “É preciso estabelecer limites de horários e mediar o uso com a presença dos pais para ajudar na compreensão das imagens. Além disso, é preciso equilibrar as horas de jogos online com atividades esportivas, brincadeiras, exercícios ao ar livre ou em contato direto com a natureza”, ressaltou a especialista.

Conforme o manual, jogos online com cenas de mortes, tiroteios ou desastres e que ganham pontos de recompensa não são apropriados em qualquer idade. O motivo, segundo o guia, é a banalização a violência como sendo aceita para a resolução de conflitos, sem expor a dor ou sofrimento causado às vítimas. 

Valores familiares e regras de proteção social para o uso saudável, crítico e construtivo das tecnologias precisam estar presentes nas conversas familiares. Segundo o manuel, é preciso enfatizando a relevância ética de não postar qualquer mensagem de desrespeito, discriminação, intolerância ou ódio, bem como sobre nunca compartilhar senhas, fotos ou informações pessoais ou se expor a pessoas desconhecidas.

Confira abaixo algumas das recomendações da SBP:

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Transtorno por jogos eletrônicos será classificado como doença

Agência Brasil

Depois de 28 anos, a Organização Mundial de Saúde (OMS) vai atualizar a Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde (CID, sigla em inglês). A previsão é que a definição de vários transtornos mentais seja reformulada e inclua novos conceitos, como o transtorno por jogos eletrônicos e o transtorno de incongruência de gênero.

A CID é um sistema que foi criado para listar, sob um mesmo padrão, as principais enfermidades, problemas de saúde pública e transtornos que causam morte ou incapacitação de pessoas, além de orientar a conduta de profissionais de saúde na identificação e tratamento dessas doenças.

A referência para a formação da CID é a Nomenclatura Internacional de Doenças, da OMS. No Brasil, a CID baseia as definições dos principais levantamentos estatísticos elaborados pelo Ministério da Saúde.

Atualmente, está em vigor a CID-10, que foi aprovada em 1990. A versão consolidada da nova classificação, que será chamada CID-11, deve ser avaliada durante a Assembleia Mundial de Saúde, prevista para maio deste ano, em Genebra, na Suíça.

Saúde mental

A classificação de 1990 está sendo revisada há alguns anos por uma série de especialistas de diferentes áreas e países, incluindo o Brasil. As mudanças em debate que têm chamado mais atenção são as relacionadas à saúde mental.

Entre as principais alterações, está a inclusão na lista de transtornos mentais ocasionados por comportamentos obsessivos do chamado gaming disorder ou “transtorno por jogos eletrônicos”.

Segundo a OMS, o uso abusivo de internet, computadores, smartphones e outros aparelhos eletrônicos, além do descontrole no uso de videogames, aumentou drasticamente nas últimas décadas e este aumento veio associado a casos documentados de consequências negativas para a saúde. Mas, o assunto ainda está sendo discutido pelos especialistas que participam do processo de definição das novas diretrizes.

“Existe um debate se a CID-11 deveria incluir uma categoria de Gaming Disorder, algo como Transtorno por Jogos Eletrônicos, como parte de um comportamento de jogo persistente ou recorrente caracterizado por um descontrole sobre o jogo, em prejuízo de outras atividades na medida em que o jogo tem precedência sobre outros interesses e atividades diárias, mesmo quando a continuação de jogos implica a ocorrência de consequências negativas. Se a falta de autocontrole em relação a videogames será legitimada como transtornos específico é tema de debate, uma vez que há dúvidas de como definir o conceito”, explicou o psiquiatra Jair Mari, coordenador dos Estudos de Campo no Brasil para o Desenvolvimento da Classificação dos Transtornos Mentais e de Comportamento da CID-1.



Segundo Mari, que também é professor titular do Departamento de Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo (USP), a 11ª revisão da CID é muito mais ampla e reformula a apresentação de vários transtornos, como o Obsessivo Compulsivo, que deixa a categoria de transtornos neuróticos e passa integrar o conjunto de distúrbios caracterizados por pensamentos e comportamentos repetitivos.

Há também a eliminação dos subtipos da esquizofrenia, além de mudanças na classificação dos transtornos do humor, ansiedade, estresse, alimentares e os relacionados ao uso de substâncias, entre outros.

Incongruência de gênero

Ao longo dos séculos, a classificação passou por várias mudanças. As primeiras tentativas de listar as principais doenças que mais causavam mortes datam do século 17.

Uma das mudanças mais polêmicas em toda a história da CID foi a inclusão do termo homossexualismo, em 1948, na categoria personalidade patológica. Na década de 60, o homossexualismo passou a ser considerado como um desvio na categoria de transtornos sexuais e na década de 70 foi incluído como um transtorno mental.

Em 1990, quando foi feita a última revisão da CID, a OMS retirou a homossexualidade da classificação como uma doença mental. A data de exclusão do termo homossexualismo como um distúrbio, 17 de maio, se transformou no Dia Internacional contra a Homofobia e a Transfobia.

A CID-11 também deve apresentar uma mudança significativa, dessa vez especificamente com relação ao tema da transexualidade, que será deslocada do rol das doenças mentais - onde figura como Transtorno de Identidade de Gênero - para outra categoria. Na nova CID, a condição da transexualidade poderá ser definida como “incongruência de gênero”.

O professor Mari explicou que a mudança na definição não impedirá o acesso a possíveis tratamentos, como terapias hormonais ou cirurgias de readequação sexual. Também está sendo proposta uma categoria específica para as crianças com incongruência de gênero.

Impacto da revisão

Assim como o transtorno de incongruência de gênero, os Transtornos de Sono-Vigília e de Disfunções Sexuais serão classificados como transtornos, porém, em outro lugar, não mais debaixo da seção de Transtornos Mentais, como na CID-10.

O professor explicou que foi proposta ainda a exclusão dos subitens “orgânico e não orgânico” para definir as disfunções sexuais, com o objetivo de eliminar “a falsa dicotomia entre mente e corpo”. Também devem ser removidas as categorias “aversão sexual” e “falta de prazer sexual”, que geralmente são associadas a ideia de frigidez feminina.

Os transtornos de preferência sexual passarão a ser chamados de Transtornos Parafílicos, “os quais envolvem interesses sexuais atípicos sem consentimento da outra parte e/ou que haja ameaça ou intimidação”.

A nova classificação deve excluir ainda as categorias “fetichismo” e “travestismo fetichista” e manter apenas a pedofilia e o sadismo, que configuram importância de saúde pública.

“O item sadismo provavelmente será acrescido da palavra coercivo para diferenciar da prática de forma consensual. Espera-se que as propostas sugeridas melhorem a conceituação destas condições de saúde, promovam a melhoria do acesso aos serviços de saúde, a formulação de leis mais adequadas, políticas e padrões de atendimento e reduzam a discriminação”, disse Jair Mari.

O especialista alerta que a classificação pode limitar, no campo da psiquiatria, as possibilidades de definição de problemas complexos ocasionados por diferentes causas, muitas vezes imprecisas, como a esquizofrenia.

Rotina clínica

“O diagnóstico ocupa lugar especial na rotina clínica de um psiquiatra. As categorias diagnósticas fornecem as bases para que o clínico possa armazenar as suas experiências através da observação dos sinais e sintomas, buscando na classificação das síndromes o seu melhor tratamento, e a predição de um melhor prognóstico para o paciente. Há, contudo, um esgotamento do modelo diagnóstico adotado pelos manuais atuais, como o DSM-5, recém-lançado e a CID11, que está em fase de preparação. Este paradigma de distinção diagnóstica com base em classificações categóricas pode estar dificultando o desenvolvimento da psiquiatria”, argumentou Mari.

No entanto, ele destaca que a importância da CID como resultado das mudanças na sociedade e na medicina.

“A CID-11 reflete o conhecimento atual de um campo em constante evolução, uma vez que o avanço científico na área deve proporcionar mudanças futuras que a psiquiatria brasileira tem acompanhado, hoje com participação ativa no processo de pesquisa colaborativa com pesquisadores de centros renomados internacionais”, afirmou Mari.

Segundo a OMS, no Brasil é possível ainda que a epidemia do vírus Zika, que atingiu fortemente o país a partir do fim de 2015, possa motivar a inclusão da Síndrome Congênita do Zika no novo catálogo.

A síndrome afetou a formação milhares de recém-nascidos e apresenta uma série de sintomas clínicos e malformações neurológicas que ainda estão sob investigação.


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