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Especial Reencontros: goleiro deficiente dá aula de superação

Cinco anos depois, a reportagem do SJCC reencontra Jerffeson, o goleiro de Ribeirão que desafia a deficiência física

Especial Reencontros: goleiro deficiente dá aula de superação

Jerffeson perdeu a perna em um acidente com um caminhão quando tinha 4 anos, mas mesmo assim se tornou goleiro. - Foto: Leo Mota / JC Imagem

Leonardo Vasconcelos

 “Eu não posso deixar a vida passar por cima de mim, feito passaram por cima da minha perna. Eu é que tenho que passar por cima de tudo. O exemplo quem tem que dar sou eu”. A frase é dita com voz e olhar firme de alguém que conseguiu dar um drible no destino e se transformou em um exemplo ao (re)aprender a caminhar na vida. Partida. Mas nunca interrompida. Prosseguida adiante por Jerffeson Lima, de 25 anos, que há 21 se recusa a se ver como deficiente e prefere se enxergar como eficiente. Apaixonado por futebol, ele se tornou goleiro e agarrou a chance de provar a todos, e a si mesmo, do que é capaz. As suas defesas, no campo de pelada e da perseverança, foram aplaudidas no Brasil inteiro através de reportagens. Hoje, o jovem continua driblando dificuldades e protegendo a meta da superação.

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 Reencontrar Jerffeson foi fácil e difícil. Seguir até o pequeno município de Ribeirão, na Zona da Mata Sul de Pernambuco, a 87 quilômetros do Recife, foi simples. O complicado foi achar novamente a casa da família dele, situada em uma área de morro da cidade, não muito bem coberta pela localização de GPS. O jeito foi tentar puxar pela memória a lembrança de uma noite do final de outubro de 2013, quando a humilde residência de cor verde desbotado foi encontrada no meio de uma ladeira de barro. No local só se chega a pé, e com certa dificuldade, devido ao terreno bem inclinado e acidentado. Imagina, então, com uma perna só? Foi o que se pensou, na época e no retorno. Nas duas oportunidades, ao se bater palmas na frente da casa, de lá de dentro surgiu Jerffeson saltitando com sua marca inconfundível: o sorriso. Tão largo quanto o coração.

Confira na reportagem

Na primeira vez, a cena foi inusitada e improvável. A equipe de reportagem do Sistema Jornal do Commercio de Comunicação (SJCC) viaja pelo interior gravando uma série de reportagens multimídia sobre a Copa do Mundo do Brasil, do ano seguinte, tendo como foco pessoas vítimas de preconceito. A “Copa do Meu Mundo” mostrou a importância do futebol para alguns grupos de excluídos. Cada município tinha um diferente. Na região de Ribeirão, o desafio era contar histórias de deficientes. Todavia, mesmo com a pesquisa prévia, até a noite em que a equipe chegou à cidade o tal personagem ideal ainda não havia sido encontrado. Sem muitas opções (e quase sem esperança), só restou fazer uma última tentativa de busca presencial mesmo. A equipe foi até uma escola pública e lá perguntou se alguém conhecia uma pessoa com este perfil. “Eu já vi um menino com uma perna só jogando num campinho. Posso dizer onde ele mora”, assegurou uma funcionária do local. Foi assim que há seis anos a equipe do JC se deparou com aquele sorriso na frente da casa humilde.

Dentro da residência, no reencontro este ano, os sorrisos se multiplicaram no bate-papo. Se fecharam brevemente apenas no momento de relembrar o acidente quando tinha quatro anos. Por ironia do destino, o mesmo futebol que o salvou quase o matou. No começo da manhã daquele 19 de fevereiro de 1997, Jerffeson batia bola ao lado de uma estrada de barro, enquanto a mãe estava lavando roupa em um rio do outro lado da rodagem. “Fui jogar com meus amigos, mas quando atravessei de volta não olhei para os lados. Aí eu só senti a pancada. Quando abri os olhos já estava debaixo do caminhão. Na hora que olhei pra baixo, vi minha perna direita esmagada que nem um bagaço de cana”, lembrou Jerffeson, com um raro semblante sério, recordando que foi socorrido para o hospital onde teve a perna amputada.

Além da falta do membro inferior, ele começou a sentir também o preconceito. “Na escola me chamavam de Saci Pererê, perninha, aleijado. Isso doia muito, me magoava. Mas eu coloquei na cabeça que eu ia provar o meu valor”, contou. Foi então que o são-paulino roxo e fã de Rogério Ceni (ex-goleiro tricolor e hoje técnico do Fortaleza), resolveu, com uma perna só, seguir os passos do ídolo. No início encontrou resistência. Aos poucos, provou que a sua condição física não era impedimento para agarrar bem. A prova material disto se encontra plastificada e pregada na parede do seu estreito quarto. A página do Jornal do Commercio com a reportagem “Defesa dos (d)eficientes”, publicada no dia 22 de abril de 2014. “Ela mudou a minha vida. Na rua, pessoas que antes nem olhavam pra mim me paravam pra tirar foto. Até autógrafo eu comecei dar!”, contou, com o sorriso de sempre.

Jerffeson nem imaginava, mas conquistou também uma fã de muito longe. A filha do então presidente do São Paulo viu a matéria e mandou como presente para o garoto uma caixa repleta de produtos do clube, entre eles uma camisa autografada de Ceni. A entrega rendeu uma nova matéria “Um chute de superação”, capa do JC no dia 8 de junho do mesmo ano. “Foi muito emocionante. Nunca imaginei que um dia eles iam saber que eu existo e ainda mais mandar presentes”, recordou. Meses depois, a TV Globo pediu o contato de Jerffeson para fazer matérias e através delas ele foi até São Paulo, onde realizou o sonho de conhecer seu ídolo. O Sport, em parceria com uma empresa de próteses, ainda doou uma perna mecânica ao jovem, no entanto o equipamento quebrou.

O ano de 2014 foi realmente mágico para Jerffeson. Mas a vida, ele também aprendeu, teve que continuar. Os obstáculos permaneceram. É somente com o salário-mínimo que recebe como pensão que sustenta a casa onde mora com a mãe, desempregada. Até chegou a iniciar a sonhada reforma, mas sem recursos não conseguiu concluir. Apenas com o ensino médio completo, tentou várias vezes arranjar emprego, mas só fez bicos em lava-jato, oficina, padaria, e há quase um ano não arruma serviço.

Apesar das dificuldades, não cogita se desfazer dos seus sonhos. Dos que já foram realizados e dos que ainda não. “Uma vez um cara, que passou de carro do lado do campo, me reconheceu. Chegou em mim e ofereceu R$ 5 mil pela camisa autografada de Ceni. Eu agradeci, mas disse não. Não tem dinheiro no mundo que compre o presente de um ídolo. Eu tenho fé que ainda vou realizar meus outros sonhos. Quero um dia quem sabe defender o Brasil em uma paraolimpíada. Também fazer cursos como design em games ou pinturas litográficas”, projetou.

Enquanto isso, Jerffeson continua quase todo dia a bater bola com os amigos no mesmo campinho de terra, localizado entre as duas faixas da BR-101, bem na entrada de Ribeirão, onde foi “descoberto”. A descoberta na verdade foi feita pelo próprio Jerffeson. A do sentido da vida que, apesar das dores, deve sempre ser celebrada. Como um gol. “No futebol, eu me sinto completo. Não sinto falta de uma perna quando estou em campo. Mesmo sem ela eu jogo melhor do que muita gente. Tudo eu agradeço a Deus e ao futebol. Eu sou perfeito. E não deixo nada, nem ninguém me provar o contrário”, defendeu o goleiro onde mais gosta de estar: entre traves, sem entraves.

A ALEGRE LIÇÃO DO SORRISO

“Eu coloquei ele no mundo com duas pernas! Deus fez assim, ele saiu de dentro de mim assim...então eu não queria ver ele sem perna”, afirmou com olhos marejados Adriana da Silva, de 44 anos, a mãe, amiga e a primeira “treinadora” de Jerffeson. O impacto do acidente foi muito grande não só no filho, mas também na mãe. Tanto que na época ela demorou a aceitar ver o filho na nova condição e passou cerca de três meses pra ter coragem de ir no hospital visitá-lo. Foi difícil, mas ela aprendeu com o próprio filho a superar obstáculos e hoje é mais uma torcedora do famoso goleiro de Ribeirão que agarrou o Brasil.

Quando questionada sobre quando e como começou a fixação de Jerfesson com o futebol, Adriana disse não saber precisar exatamente, mas desde muito novo ele sempre foi assim. “Antes eu morava em frente a um campo e ele bem pequenininho sempre ficava olhando os garotos jogar. Como era muito novinho não deixavam ele ir pra pelada. Com o tempo depois ele foi entrando. Aí vivia lá. Quando eu olhava pro lado ele dava um jeito de dar uma fugidinha pra jogar”, lembrou Adriana.

A data do acidente, claro, foi traumática e faz a voz da mãe embargar até hoje. “Eu estava lá do outro lado da estrada lavando roupa no rio e ele jogando bola do outro. Do nada eu só escutei um pipoco e o povo gritando. Quando corri pra ver o que tinha acontecido era o meu filho debaixo do caminhão. Fiquei paralisada, não sabia o que fazer. Só me lembro daquela cena. De ver a perna dele esbagaçada, como uma cana depois de ser moída, só aquele bagaço sabe? Não tem como esquecer. Tem não”, recordou Adriana, com respiros profundos, como as cicatrizes desta visão.

Depois do momento letárgico, o impulso de Adriana foi correr para casa e chamar o pai para socorrer o filho. Quando voltou para o local do acidente, Jerffeson já havia sido levado para o hospital. Aí que veio um outro momento muito traumático para a mãe. Adiado o quanto pôde. O de ver Jerffeson pela primeira vez sem a perna direita. “Eu simplesmente não conseguia. Demorei três meses. Os médicos conversaram comigo e disseram que isso ia facilitar a recuperação dele. Aí tomei coragem e fui. Quando cheguei na frente da porta ainda parei, sem saber se entrava ou não. Mas entrei. Foi um baque. Chorei, abracei ele. A partir desse momento, aceitei e me acostumei com ele não ter mais a perna”, relatou.

Adriana conta que voltou para casa com um novo filho e ela também teve que se transformar em uma nova mãe. “Tudo foi diferente. Seja aqui em casa ou fora. Pra ele estudar, eu levava ele encangado aqui na minha barriga pro colégio e depois ia buscar. Até quando ele ficou muito pesado e eu não pude mais com ele. Ele já tinha nove anos, mas aí Graças a Deus tinha um senhor que arrumou uma muleta pra ele. Jerffeson demorou a se adaptar, mas depois se acostumou e hoje vai pra qualquer lugar assim”, disse.

E Jerffeson foi...longe. Mais até do que a própria mãe sonhara. “Acho que nem ele mesmo acreditava que com essas reportagens poderia ter a chance de ganhar tanta coisa. Pra mim, como mãe, foi uma alegria muito grande ver ele realizando tudo que era sonho”, afirmou Adriana. Com a “fama”, ela viu também a lista de candidatas a nora crescer. No dia do reencontro, uma “amiga” dele foi visitá-lo. A doméstica Maria Fernanda Pessoa conheceu o jovem há três meses. “Eu o vi nas reportagens e achei muito interessante a história dele. A gente se conheceu em grupo de Whatsapp e começou a se falar. Ele realmente é uma pessoa muito especial, maravilhosa, com um coração enorme. Qualquer mulher se encantaria com ele”, disse.

De fato, não há como não se encantar com a trajetória deste goleiro que é um paredão de bons sentimentos. Tanto que a própria mãe admite que, mais do que ensinar, aprendeu muito com Jerffeson. “Ele me ensina todos os dias a ver uma vida de uma outra forma. A sua maior lição é o seu sorriso. Ninguém vê ele triste em nenhum canto. Acho que ele veio com essa missão na vida. A de ensinar que sempre se deve sorrir”, garantiu Adriana, tentando segurar o sorriso, com as brincadeiras de Jerffeson ao fundo. Realmente, a alegria vista naquela casa simples do morro de Ribeirão precisava ser sentida por todo o Brasil.

 Jerffeson Lima leva uma vida humilde na Mata Sul de Pernambuco. Se você, ouvinte, puder ajudá-lo, pode entrar em contato pelo: 9.9913-4319

Ouça a reportagem na voz de Leonardo Vasconcelos:

 

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