CORONAVÍRUS

O que é a Cepa Indiana? O cenário da Índia pode se repetir no Brasil? Entenda

A variante indiana possui três versões, com certas diferenças.

Gustavo Henrique
Gustavo Henrique
Publicado em 20/05/2021 às 15:45
Pixabay
FOTO: Pixabay
Leitura:

A variante B.1.617 do novo coronavírus, de origem indiana, é considerada um risco para todo o mundo. O governo do Maranhão divulgou o primeiro caso da cepa indiana nesta quinta-feira (20). A informação foi confirmada pelo secretário de saúde do Maranhão, Carlos Lula. Na última semana, o Governo Federal acatou uma recomendação da Anvisa e decidiu proibir a circulação de voos vindos da Índia no país. Mas afinal, o que é a Cepa indiana?

Essa variante possui três versões, com pequenas diferenças: a B.1.617.1, a B.1.617.2 e a B.1.617.3. Todas elas foram descobertas na Índia, entre outubro e dezembro de 2020. A análise genética revelou que o trio apresenta mutações importantes nos genes que codificam a espícula, a proteína que fica na superfície do vírus e é responsável por se conectar aos receptores das células humanas e dar início à infecção.

Entre as alterações, três delas chamam mais a atenção dos especialistas: a L452R, a E484Q e a P681R.
Vale reparar que a mutação L452R já havia sido observada em duas variantes detectadas em Nova York e na Califórnia, nos Estados Unidos. A E484Q tem algumas similaridades com a E484K, que foi uma alteração encontrada em outras três linhagens que ganharam bastante destaque nos últimos meses: a B.1.1.7 (Reino Unido), a B.1.351 (África do Sul) e a P.1 (Brasil).

Já a mutação P681R parece ser exclusiva das versões flagradas na Índia e não se sabe muito bem o que ela pode significar na prática.
"Essas mutações virais estão surgindo em cidades em que há o relaxamento das medidas de proteção e onde se acreditava que a população já estava imunizada, seja pela infecção natural ou pela vacinação", disse o virologista Fernando Spilki, professor da Universidade Feevale, no Rio Grande do Sul, em entrevista à BBC Brasil.

Em linhas gerais, tudo indica que esses "aprimoramentos" genéticos melhoram a capacidade de transmissão do vírus e permitem que ele consiga invadir nosso organismo com mais facilidade. Antes, com as versões anteriores, era necessário ter contato com uma quantidade considerável de vírus para ficar doente. Agora, com as novas variantes, essa carga viral necessária para desenvolver a covid-19 é um pouco mais baixa, o que certamente representa um perigo.

"É como se o vírus criasse caminhos para escapar do sistema imune e desenvolvesse maneiras de transmissão mais eficazes", completou Spilki, que também coordena a Rede Corona-Ômica, do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovações.

Por que a nova cepa preocupa o Brasil?

O interesse e a preocupação relacionados a essa linhagem aumentaram consideravelmente no último mês. Isso porque o número de casos de covid-19 provocados por ela aumentou consideravelmente na Índia, seu provável local de origem. Nas últimas semanas, a cepa também foi detectada em outros 44 países de todos os seis continentes, por isso, não há como descartar que a variante pode se alastrar no brasil. Desde o final de abril, a Índia vive seus piores momentos desde que a pandemia começou, com recordes nos números de infectados e óbitos pela covid-19 — embora a variante não seja o único fator que explica esse agravamento da crise sanitária por lá.

No Reino Unido, a subida vertiginosa de pacientes infectados com a B.1.617 ameaça a reabertura: já existem dúvidas se as atividades sociais e econômicas serão 100% retomadas até junho, como planejado.

Cepa indiana no Maranhão

Mesmo antes da confirmação dos primeiros casos oficiais, alguns indícios já aumentavam a preocupação sobre a entrada da linhagem no país. Primeiro, no dia 10 de maio, a Argentina anunciou a descoberta de dois casos de covid-19 causados pela B.1.617. O vírus foi flagrado por lá em dois menores de idade, que voltavam de uma viagem a Paris, na França. Como a Argentina faz fronteira com o Brasil e há um constante fluxo entre os dois países, o risco de a nova versão do vírus "pular" para cá aumenta consideravelmente.

 

A segunda notícia que deixou os especialistas apreensivos foi justamente a chegada do navio MV Shandong da ZHI em São Luís, capital do Maranhão, no último sábado (15/05). Um passageiro indiano que estava na embarcação foi diagnosticado com covid-19 e permanece em observação num hospital privado da capital maranhense. A vigilância sanitária do estado determinou a quarentena de todos os tripulantes, enquanto o caso é analisado para saber se é causado pela B.1.617.

Governo Federal proibe voos vindos da Índia

Há cerca de 15 dias, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) sugeriu que o Governo Federal tomasse medidas mais contundentes, como a proibição da chegada de voos vindos da Índia. Mas uma atitude sobre o tema só foi tomada dez dias depois: uma portaria que proíbe temporariamente a entrada de passageiros vindos não só da Índia, mas também de África do Sul, Reino Unido e Irlanda do Norte, foi publicada no Diário Oficial da União na última sexta-feira (14/05).

Mais Lidas