ENTREVISTA

Dor e revolta, Adriana Calcanhotto fala da música que fez para Miguel

Morte de Miguel Otávio, 05 anos, que caiu do 9º andar de um prédio de luxo no Recife abalou a cantora que se viu na obrigação de escrever


Dor e revolta, Adriana Calcanhotto fala da música que fez para Miguel

Adriana Calcanhotto conversou sobre a história de Miguel e como tudo isso lhe deixou abalada - Foto: Reprodução/TV Jornal

Marcelo Soares

Miguel Otávio Santana da Silva, de 05 anos, morreu no dia 02 de junho de 2020, depois de cair do 9º andar de um prédio de luxo no Centro do Recife, no condomínio conhecido como Torres Gêmeas, localizado no bairro de São José. A queda do garoto de uma altura de 35 metros chocou o país e abalou a cantora e compositora Adriana Calcanhotto.

Miguel tinha ido acompanhar a mãe, Mirtes Renata Santana de Souza, que trabalhava como empregada doméstica e teve que ir para a casa dos patrões mesmo em meio a uma pandemia. O garoto estava sob os cuidados da ex-patroa da mãe, Sari Gaspar Côrte Real, primeira-dama no município de Tamandaré, no Litoral Sul de Pernambuco, e foi entregue à própria sorte, largado sozinho em um elevador, para que a ex-patroa da mãe pudesse continuar pintando as unhas.

“Eu não consegui lidar bem com a história do Miguel. O Brasil no seu pior está retratado nesse episódio”, contou Adriana Calcanhotto.

Para tentar colocar para fora toda a angústia, ela compôs uma música sobre a morte de Miguel. A canção foi lançada em setembro de 2020 e teve a renda dos direitos autorais revertida para o Instituto Menino Miguel, criado pela Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), em homenagem ao garoto.

Adriana Calcanhotto conversou com a jornalista Anne Barreto, apresentadora da TV e Rádio Jornal. Na entrevista, ela falou sobre como a história de Miguel mexeu com ela, revelou como foi o processo de criação, o encontro com Mirtes e o que a pandemia deixará de legado.

Entrevista com Adriana Calcanhotto

Porque você decidiu transformar a história de Miguel em música?

Por que eu não consegui lidar bem com a história do Miguel. Este episódio tem contido tantos outros sintomas de racismo extremo, corrupção, desigualdade do Brasil... O Brasil no seu pior está retratado nesse episódio. A partir do dia 02 de Junho do ano passado eu não consegui mais não pensar, não consegui comer... Eu fiz a canção por que não consegui não fazê-la. 

Qual trecho foi mais difícil de escrever da música 02 de Junho?

O trecho mais difícil para mim é a hora que dá esse número “59 segundos antes de sua mãe voltar”. Eu acompanhei todo o vídeo que foi analisado pela polícia, com a marcação dos tempos e você vai vendo os acontecimentos todos… Então, ele cai no momento que ela (Mirtes) volta. É uma diferença de 59 segundos entre a partida dele (Miguel) e a chegada dela (Mirtes). [...] Foi muito difícil de fazer. Foi muito difícil construir a canção, de ver essas frases. A canção começa de forma jornalística. Só dou fatos. Eu não adjetivo nada e a história se dá do jeito que foi.

Na sua conversa com Mirtes, o que ela falou que não sai da sua cabeça?

Eu a recebi aqui em casa quando ela veio ao Rio, e a primeira coisa que ela disse foi: “Imagina se fosse o contrário? Se eu tivesse deixado cair o filho da patroa?”. Ela disse que essa hora estaria presa, apanhando. E isso é verdade. Então, todas as coisas que ela diz são extremamente colocadas, concisas, precisas. Ela é uma mulher espetacular. É uma mulher que a gente tem que ouvir.

O Caso Miguel revela o país desigual que nós vivemos?

Neste episódio do menino Miguel, quando você vira o contrário, é revelado o nível de desigualdade. Essa é uma história exemplar. Tem todos os componentes de racismo, de desigualdade, tem peculato, tem o dinheiro público sendo usado, tem o fato de que Mirtes e a mãe dela não sabiam que eram pagas com dinheiro público… É uma coisa, assim, que se alguém colocar em um roteiro alguém vai falar: “Ah não, mas tá muito exagerado”. [...] Quando você vai descascando o episódio do menino Miguel todas essas mazelas, as mais profundas mazelas brasileiras, estão contidas nessa história. E isso tudo acontece na terra de Gilberto Freyre. Eu fiquei muito tocada com essa história toda.

Uma das cenas que chamou muita atenção foi Mirtes desesperada, vendo o filho no chão sem soltar, em nenhum momento, o cachorro da ex-patroa, que ela saiu para passear, para cuidar. Para você, essa cena revela o cuidado que ela tem com o cachorro e a falta de cuidado que tiveram com o filho dela?

Isso revela ambas mulheres: uma digna e nobre, que não solta o cachorro nem no pior momento da vida inteira; e a outra que para para conversar e não pode tocar no menino por que está fazendo as unhas. Isso aí conta a história toda. Não precisa de nada.

Você acha que a pandemia vai deixar algo de positivo?

Eu acho que sim. Eu acho que, assim, a pandemia cria uma oportunidade da gente pensar as coisas, repensar, pensar o Brasil, olhar para o Brasil, olhar para essa desigualdade toda, olhar as atitudes, olhar para o racismo arraigado estrutural do Brasil. A pandemia nos permitiu um tempo de reflexão. Coisas horrorosas aconteceram. Este episódio do menino Miguel ele ocorre por causa da pandemia. Porque a mãe não tinha com quem deixar, e tem que trabalhar quando, na verdade, o certo é ficar em casa e contribuir para a sociedade, para o todo. As pandemias são cíclicas e o que eu acho mais estranho de tudo é que nós não estamos preparados para uma coisa que acontece pelo menos a cada século.

Mirtes teve retirado de si um pedaço, com a morte do filho Miguel, e se revelou uma mulher muito forte, que fez dessa situação uma luta por Justiça. Ela está estudando direito e trabalhando por um futuro melhor também para outras pessoas. Você acha que Mirtes vai sair dessa pandemia como um grande exemplo para o país? 

Ela está trabalhando por um Brasil mais justo lá na frente. Nós ganhamos a Mirtes. Eu acredito muito nela e estou à disposição dela para o que ela precisar na trajetória linda que ela começou a fazer. O próprio Instituto Miguel já está ajudando pessoas, famílias... O lance dela é ajudar as pessoas. Ela cuida, ela tem uma nobreza na alma impressionante. Pena que tivesse que acontecer isso. Mas eu acho que ela vai, sobretudo quando a justiça for feita, se sentir muito melhor. Vai ficar muito mais fortalecida para seguir adiante, ajudando outras pessoas que vão precisar dela.

Confira a letra da música '02 de Junho', de Adriana Calcanhotto:

“No país negro e racista

No coração da América Latina

Na cidade do Recife

Terça feira 2 de junho de dois mil e vinte

Vinte e nove graus Celsius

Céu claro

Sai pra trabalhar a empregada

Mesmo no meio da pandemia

E por isso ela leva pela mão

Miguel, cinco anos

Nome de anjo

Miguel Otávio

Primeiro e único

Trinta e cinco metros de voo

Do nono andar

Cinquenta e nove segundos antes de sua mãe voltar

O destino de Ícaro

O sangue de preto 2x

As asas de ar

No país negro e racista

No coração da América Latina”

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