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Veja o que está acontecendo no Afeganistão uma semana após Talibã retomar poder no país

Talibã tomou o controle do Afeganistão no dia 15 de agosto

Com informações da Agência Brasil
Com informações da Agência Brasil
Publicado em 22/08/2021 às 15:55
SHAKIB RAHMANI / AFP
FOTO: SHAKIB RAHMANI / AFP
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Mais mortes foram registradas nos arredores do aeroporto internacional de Cabul, capital do Afeganistão, em meio a tentativas de fugas de deixar o país após o Talibã retomar o poder. A informação foi dada pelo Ministério da Defesa do Reio Unido. Ao todo, sete pessoas morreram, neste sábado (21).

"Nossos sinceros pensamentos estão com as famílias dos sete civis afegãos que infelizmente morreram em multidões em Cabul", disse o ministério em comunicado neste domingo (22), segundo o Estadão. "As condições no local continuam extremamente desafiadoras, mas estamos fazendo tudo o que podemos para gerenciar a situação da forma mais segura e protegida possível."

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O Ministério da Defesa do Reino Unido diz que as Forças Armadas do país já evacuaram quase 4 mil pessoas do Afeganistão desde 13 de agosto. Ao menos 20 pessoas morreram nas proximidades do aeroporto nos últimos sete dias, segundo um oficial Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).

"A crise fora do aeroporto de Cabul é lamentável. Nosso foco é evacuar todos os estrangeiros assim que pudermos", disse à Reuters o funcionário da organização, que buscou o anonimato. "Nossas forças estão mantendo distância estrita das áreas externas do aeroporto de Cabul para evitar qualquer confronto com o Taleban", acrescentou.

Fuga do país

O aeroporto de Cabul é controlado pelas forças dos Estados Unidos. Desde que autorizou a retirada de suas tropas do Afeganistão, o presidente norte-americano, Joe Biden, tem enfrentado duras críticas.

Na última semana, milhares de pessoas tentam escapar do país pelo aeroporto, o que tem dificultado as operações dos EUA e de outros países que têm procurado evacuar milhares de seus diplomatas e civis. As nações também tentam retirar os afegãos.

Crianças

Nos últimos dias, as cenas de crianças sendo repassadas de mão em mão por uma multidão de pessoas na tentativa de entregá-las aos militares para que sejam retiradas do Afeganistão rodaram o mundo. O desespero para tentar deixar o país tem alertado as nações.

 

Os Estados Unidos retiraram 2,5 mil norte-americanos de Cabul na última semana, afirmou uma autoridade sênior do país neste sábado (21), acrescentando que Washington está lutando contra “o tempo e o espaço” para que as pessoas possam deixar em segurança o Afeganistão.

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Falando com repórteres no Pentágono, o major-general William Taylor afirmou que 17 mil pessoas até agora foram retiradas do país, incluindo 2,5 mil norte-americanos.

O porta-voz do Pentágono, John Kirby, disse que não tinha uma “contagem perfeita” de quantos norte-americanos permaneciam em Cabul e no Afeganistão no geral.

“Estamos lutando contra o tempo e o espaço”, disse Kirby. “É essa a corrida em que estamos agora. E estamos tentando fazer isso o mais rápido e o mais seguro possível”.

Kirby se recusou a descrever as “dinâmicas de ameaça” específicas em Cabul, mas classificou a situação de segurança como “fluída e dinâmica”. Ele disse que o objetivo dos EUA é “tirar o máximo de pessoas que pudermos o mais rápido que pudermos. É esse o nosso foco”.

Taylor, integrante do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas, disse que 3,8 mil pessoas foram retiradas em aviões fretados e do exército dos EUA do aeroporto de Cabul nas últimas 24 horas.

Uma semana após o grupo militante islâmico Talibã assumir o controle do Afeganistão, os Estados Unidos estão desesperadamente tentando retirar milhares de pessoas, incluindo norte-americanos, e afegãos em risco por terem trabalhado com as forças lideradas pelos EUA durante a guerra de duas décadas no país.

Tem havido cenas caóticas no aeroporto de Cabul, à medida em que a evacuação se desenvolve.

Entenda a situação

Depois de 20 anos de ocupação no Afeganistão, os Estados Unidos estão deixando o país. Mas antes mesmo da operação de retirada ser concluída, os talibãs já assumiram o controle da capital, Cabul. A velocidade dos acontecimentos provocou uma avalanche de informações no noticiário internacional. Mas por que os Estados Unidos decidiram colocar fim à incursão militar? E quem são os talibãs? Por que parte da população busca deixar o país conforme revelam as imagens que rodaram o mundo, mostrando um aeroporto caótico?

O Talibã se tornou conhecido como um grupo religioso fundamentalista na primeira metade da década de 1990 e foi organizado por rebeldes que haviam recebido apoio dos Estados Unidos e do Paquistão para combater a presença soviética no Afeganistão, que durou de 1979 a 1989, em meio à Guerra Fria. A chegada ao poder se consolida em 1996, com a tomada de Cabul.

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Uma vez no controle do governo, o Talibã promoveu execuções de adversários e aplicou sua interpretação da Sharia, a lei islâmica. Um violento sistema judicial foi implantado: pessoas acusadas de adultério podiam ser condenadas à morte e suspeitos de roubo sofriam punições físicas e até mesmo mutilações. O uso de barba se tornou obrigatório para os homens e as mulheres não poderiam ser vistas publicamente desacompanhadas dos maridos. Além disso, elas precisavam vestir a burca, cobrindo todo o corpo. Televisão, música e cinema foram proibidos e as meninas não podiam frequentar a escola.

Ataque às torres gêmeas

A ocupação dos EUA foi uma reação aos ataques às duas torres gêmeas do World Trade Center, arranha-céus situados em Nova York. Dois aviões atingiram os edifícios em 11 de setembro de 2001, levando-os ao chão e causando quase 3 mil mortes. Os EUA acusaram o Talibã de dar abrigo ao grupo terrorista Al Qaeda, que assumiu a autoria do atentado. Em outubro de 2001, tiveram início as operações militares no Afeganistão. As ruas de Cabul foram tomadas em dois meses. Em 2004, eleições foram realizadas no país e, em 2011, as forças norte-americanas anunciaram a morte de Osama Bin Laden, líder da Al Qaeda.

Volta dos talibãs

A volta ao poder dos talibãs foi consolidada no domingo (15): o presidente afegão Ashraf Ghani deixou o país e o controle do palácio presidencial foi assumido pelos rebeldes. Tudo ocorreu sem que houvesse resistências.

Diante do cenário, os EUA precisaram acelerar a conclusão do processo de saída do país, em curso desde o ano passado: uma megaoperação para tirar às pressas diplomatas e cidadãos norte-americanos foi montada pelas tropas norte-americanas, que ainda controlam o aeroporto. No entanto, imagens que ganharam repercussão internacional mostraram um caos no local, com milhares de civis desesperados para deixar o país se aglomerando junto aos aviões.

De acordo com Fernando Luz Brancoli, pesquisador e professor do Instituto de Relações Internacionais e Defesa da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), durante os 20 anos de ocupação, ocorreu uma ampliação das liberdades civis e alguns setores econômicos se desenvolveram, mas o período também foi marcado por diversas denúncias de corrupção. "Houve grupos políticos que se beneficiaram desse momento, que ganharam prestígio, ganharam dinheiro. Em uma escala menor, tivemos mulheres entrando no mercado de trabalho, ocupando algumas funções governamentais, frequentando as escolas. Mas fica no ar até que ponto essas transformações serão mantidas", disse.

Nos primeiros discursos, os talibãs têm buscado se apresentar mais moderados. Nessa terça-feira (17), um canal de televisão estatal do Afeganistão levou ao ar o pronunciamento de um porta-voz do grupo. Enamullah Samangani garantiu uma anistia geral para todos e disse que a população deveria regressar à normalidade com confiança. Zabihullah Mujahid, um outro representante do grupo, concedeu uma coletiva à imprensa onde reafirmou que não haverá vingança com quem trabalhou para o antigo governo ou para forças estrangeiras. Ele também disse que as mulheres poderão trabalhar e devem participar da estrutura de governo.

Apesar dos acenos, pesquisadores manifestam ceticismo com uma moderação. "Fico parcialmente desconfiado. A forma de governar do Talibã está muito pautada em práticas de violência e controle. Então, considerando seu histórico, até que ponto eles conseguem pensar a organização do país de outra maneira? Vamos ter que esperar pra ver, mas acho que essa moderação é meramente discursiva", diz Brancoli.

O cientista político João Paulo Nicolini Gabriel, pesquisador da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), chama a atenção para o uso das redes sociais pelo Talibã, onde divulgam indícios de corrupção. "O que eles querem mostrar nesse primeiro momento é que o governo de Ghani não representava a população".

Após terem tomado o controle de 31 das 34 capitais das províncias, o Talibã invadiu Cabul, a capital do Afeganistão

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O comportamento da população retrata o receio popular. As vias públicas estão mais vazias e parte do comércio mantém as portas fechadas. A vida das mulheres já sofre alguns impactos: muitas estão com medo de sair de suas casas. Em público, homens e mulheres voltaram a usar vestimentas afegãs tradicionais. Não se sabe se centros de estética em Cabul voltarão a funcionar. Cartazes publicitários com mulheres estão sendo apagados das ruas, como mostra uma imagem que se tornou viral nas redes sociais.

Mas apesar das imagens com milhares de pessoas reunidas no aeroporto em busca de uma oportunidade de sair do país, Brancoli avalia que a população não possui uma visão homogênea e não há uma repulsa generalizada contra os talibãs. Segundo ele, os moradores das áreas rurais são indiferentes ou apoiam o Talibã e a elite urbana não é tão numerosa.

"Tem que lembrar que o Afeganistão é um país majoritariamente rural. E nas áreas rurais, a população olhava para o governo central de forma muito desconfiada. Muitos consideravam um governo corrupto que não atendia aos seus interesses. Uma das explicações para o avanço tão rápido do Talibã seria, em parte, esse apoio da população local. Não houve grandes resistências nas partes periféricas. E quando chegou em Cabul, onde se esperava uma resistência um pouco maior, o próprio exército parecia que já tinha desistido de lutar e não tinha interesse no conflito. O presidente fugiu", pontua.

O governo de Ghani, apoiado pelos Estados Unidos, nunca teve 100% de domínio sobre o território do país e os talibãs sempre controlaram algumas áreas. De acordo com João Paulo, o cenário atual revela a incapacidade da política norte-americana de alcançar certos objetivos, o que fez com que a ocupação tenha se arrastado por mais tempo do que se esperava. "Reformularam até o sistema eleitoral do país e não conseguiram garantir uma estabilidade. Ghani tinha dificuldades de manter popularidade. E justamente por isso havia tantos soldados norte-americanos lá".

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