Saúde

Alta procura por mutirão oftalmológico no Recife tem confusão, idosa chorando e alerta para demanda reprimida durante pandemia

Fundação Altino Ventura havia separado 500 fichas para mutirão neste sábado, mas fila começou a ser formada ainda na noite de sexta-feira e vagas foram preenchidas antes do amanhecer

Com informações da repórter Juliana Oliveira
Com informações da repórter Juliana Oliveira
Publicado em 02/10/2021 às 10:07
Bruno Campos/JC Imagem
FOTO: Bruno Campos/JC Imagem
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A informação de que a Fundação Altino Ventura (FAV) - considerada uma das principais referências em oftalmologia de Pernambuco -, faria um mutirão de atendimento gratuito neste sábado (2), no Recife, atraiu muita gente. Houve até quem saísse de cidades de outras regiões do Estado em busca de uma oportunidade para saber como estava a saúde dos próprios olhos. O problema é que a procura foi muito maior que a oferta, e a negativa de atendimento a parte de quem estava na fila causou muita confusão. O episódio evidencia um problema que, no cenário nacional, vem sendo alertado por especialistas na área de saúde: a demanda reprimida por consultas ao longo da pandemia e o consequente atraso no processo de diagnóstico e tratamento em assuntos não urgentes.

A FAV fica localizada no bairro da Iputinga, na zona oeste da capital pernambucana, e havia separado 500 vagas para os atendimentos. De acordo com a instituição, a fila para o mutirão, que tomou a calçada do prédio, começou a se formar ainda na noite da sexta-feira (1º). Ao perceber a alta procura, a organização do evento distribuiu todas as fichas previstas ainda durante a madrugada, mas quem não garantiu uma vaga permaneceu no local. Após o amanhecer do dia, outras pessoas, incluindo idosos, ainda chegavam procurando atendimento.

Seu Elidio, por exemplo, saiu do município de Xexéu, na Mata Sul do estado, a quase cento e cinquenta quilômetros do Recife, na esperança de conseguir marcar uma consulta oftalmológica, mas deu a viagem perdida. Cecília também chegou na madrugada para tentar agendar uma cirurgia de catarata que já aguarda há três anos, mas não conseguiu. Segundo ela, as fichas acabaram antes das seis horas da manhã. A repórter da Rádio Jornal Juliana Oliveira flagrou uma idosa chorando, por não conseguir o atendimento oftalmológico.

O mutirão deveria atender 500 pacientes a partir dos 50 anos de idade para exames de triagem e consulta. Alem disso, pacientes com indicação de cirurgia de catarata já sairiam da fundação com a data do procedimento agendada. Sem atendimento, Edmilson que está desempregado, voltou para casa. Segundo ele tinha gente até vendendo fichas na fila. No meio da manhã, a instituição informou que distribuiria mais 160 fichas para atendimento ao longo do sábado.

Demanda reprimida

Ouvidos pelo jornal Extra, do Rio de Janeiro, oftalmologistas alertaram para os problemas causados por atraso no diagnóstico e tratamento de doenças oculares, em razão do adiamento de atendimento, como medida preventiva contra a covid-19.

"Tive casos de pacientes que ficaram cegos porque demoraram cerca de duas semanas para procurar atendimento. Após a pandemia, haverá um boom de casos como esses ou porque não conseguiram atendimento em hospitais públicos ou porque não procuraram atendimento por medo de contágio pela Covid", contou a oftalmologista do Centro Avançado de Oftalmologia do Hospital São Vicente de Paulo e especialista em glaucoma, Luísa Aguiar.

De acordo com o Conselho Brasileiro de Oftalmologia, em parceria com a consultoria 360º CI, durante a pandemia, houve queda de cerca de 27% no número de exames para diagnóstico precoce de glaucoma no Sistema Único de Saúde (SUS). Isso significa algo em torno de 1,6 milhão de exames que deixaram de ser feitos. Também segundo a pesquisa, cerca de 6,5 mil cirurgias para tratar a doença deixaram de ser feitas no SUS em 2020.

Para o chefe do Centro Avançado de Oftalmologia do Hospital São Vicente de Paulo, Tiago Bisol, a alimentação irregular e o sedentarismo na pandemia também pioraram a situação de alguns pacientes. "Os quadros clínicos especialmente de pacientes com doenças crônicas e emocionais foram muito agravados. Quem tem retinopatia diabética, que é uma das doenças que causam cegueira, foi um dos mais atingidos pela pandemia, porque com o aumento do índice glicêmico, o quadro piora bastante", contou ao Extra.

Outras doenças

Não foi apenas na área oftalmológica que a saúde do brasileiro piorou. Um levantamento feito pela Johnson & Johnson Medical Devices em parceria com o Instituto Ipsos, entre os meses de setembro e outubro do ano passado, com 2.200 pessoas no Brasil, Argentina, Chile, Colômbia e México, mostrou que 70% das pessoas cancelaram ou adiaram serviços de atenção médica, como consultas preventivas e cirurgias eletivas, por causa da pandemia. Além disso, 39% dos brasileiros entrevistados disseram que sua saúde piorou durante a pandemia.

"No país, o diagnóstico de novos casos de câncer reduziu em cerca de 70% desde o começo da pandemia”, alerta o cirurgião geral e gerente médico da Johnson & Johnson Medical Devices Brasil, Gustavo Scapini, em entrevista ao site do médico Drauzio Varella.

“Quanto mais tarde diagnosticarmos uma doença, maior a probabilidade do paciente ter uma doença grave e maior o risco de desenvolver complicações sérias. Em termos de investimento em saúde, um paciente com maior gravidade consome mais recursos humanos e insumos, tem um pior prognóstico e menor expectativa de vida. Usando um velho bordão, é melhor prevenir do que remediar. Infelizmente, os anos de 2021 e 2022 serão anos de remediações e não sabemos ao certo quando conseguiremos reorganizar o sistema”, analisou o médico.

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