MISTéRIO

Caixa 'misteriosa' é encontrada na praia de Piedade

Novas caixas estão aparecendo no litoral pernambucano

Caixa 'misteriosa' é encontrada na praia de Piedade

Caixas foram encontradas na Praia de Piedade - Foto: Adriana Victor/TV Jornal

Na manhã desta terça-feira (30), mais caixas de borrachas foram encontradas no Litoral de Pernambuco. Desta vez, elas apareceram na praia de Piedade, em Jaboatão dos Guararapes, no Grande Recife. No final de semana, outras caixas foram encontradas nas praias de Serrambi, no Litoral Sul, e de Catuama, no Litoral Norte. Em nota, a Marinha do Brasil informou que não foram registrados acidentes náuticos na região que justifiquem o aparecimento dos pacotes sem identificação que estão sendo encontrados no Litoral do Nordeste deste 2018.

Até o momento, as capitanias dos portos envolvidas estão acompanhando a situação. O biólogo, pesquisador, oceanógrafo e professor do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade de Pernambuco (UPE), Clemente Coelho Junior, pede que as pessoas evitem tocar nesse material e alerta que as caixas são um “prejuízo significativo para o meio ambiente”.

Laudo pericial

Segundo o especialista, um laudo pericial realizado em setembro de 2019 pela Polícia Federal constatou que os fardos são de látex, matéria-prima para produção de material emborrachado como botas, preservativos e pneus. “Durante a deterioração desse material ele pode liberar pequenos pedaços que infelizmente podem ser ingeridos por tartarugas, cetáceos e até por peixes e aves marinhas. É um prejuízo significativo para o meio ambiente”, afirmou.

Ainda segundo o especialista, o objetivo do laudo solicitado pela Polícia Federal também era identificar se havia relação entre o derramamento de óleo que atingiu o litoral nordestino naquele período, o que foi descartado pelo estudo desenvolvido pela Universidade Federal do Ceará. No entanto, tanto as caixas quanto as manchas de óleo foram trazidas pela mesma corrente marítima.

Cuidado

O biólogo também pede que a população tenha cuidado ao avistar algum caixa desta. “Esse material, apesar de ser um látex extraído da seringueira, pode ser perigoso. Não pelo material em si, mas durante o seu processamento na cura do látex é utilizada uma série de compostos que podem ser perigosos e podem liberar compostos nocivos à natureza ou até metais pesados. Todo cuidado é importante. É preferível que não se manuseie esse material”, detalhou.

Ele orienta quais procedimentos tomar caso alguém encontre uma dessas caixas. “Entrem em contato com a prefeitura, com as autoridades locais e, se for o caso, com as autoridades estaduais, para que seja retirado e levado ao destino como um aterro sanitário e tendo até a possibilidade de ser reciclado, reutilizado. Esse material está chegando ao nosso litoral, a gente vai continuar vendo esse material chegar. Então, vale o alerta: não toque, evite tocar nesses fardos e comunique as autoridades locais”, destacou.

Nota da Prefeitura de Jaboatão

Procurada pela TV Jornal, a Prefeitura de Jaboatão disse que, sequer, chegou a ser informada sobre essa caixa. A Marinha está à frente do caso.

Nota da Marinha do Brasil

A Marinha do Brasil, por intermédio do Comando do 3º Distrito Naval (Com3ºDN), informa que não foram registrados acidentes náuticos na região que justifiquem o aparecimento dos “pacotes sem identificação” que estão sendo encontrados no litoral do Nordeste desde 2018. Até o momento, as Capitanias dos Portos envolvidas estão acompanhando.

Prefeitura de Ipojuca já recolheu 54 caixas

Em nota, a Prefeitura de Ipojuca informou que foram recolhidas 40 caixas em 2018, além de outras 14 da última semana até a última segunda-feira (29). A gestão municipal destacou que enviou comunicado sobre o novo aparecimento à Marinha, à Capitania dos Portos e à Secretaria de Meio Ambiente de Pernambuco. Confira a nota da Prefeitura de Ipojuca na íntegra:

A Secretaria de Meio Ambiente e Controle Urbano do Ipojuca e a Agência municipal de Meio Ambiente, em trabalho conjunto com os agentes de salvamento no mar (SALVAMAR) da Secretaria de Defesa Social, desde a semana passada, encontrou um material (semelhante a uma caixa) ainda de origem desconhecida que está sendo descartado no mar e chegando no litoral ipojucano. O material é do mesmo tipo do que foi encontrado em 2018 e, que segundo a perícia da Polícia Federal, na época, se trata de látex natural, “matéria-prima utilizada na indústria da borracha, especialmente na produção de pneus, luvas de proteção, entre outros”.

Como se trata de crime ambiental, o laudo da Polícia Federal (PF) sugere ainda que o material descartado seja oriundo do Sudeste asiático em direção ao canal do Panamá e portos dos Estados Unidos, já que os principais países produtores deste material são a Indonésia, Malásia, Tailândia e Vietnã. Apesar das evidências, desde 2018, entendemos que as investigações não avançaram e as caixas voltaram a aparecer sem nenhum tipo de marca que auxilie na origem da carga. Em 2018, foram encontradas no litoral de Ipojuca 40 caixas. E, da última semana até esta segunda-feira (29), 14 delas foram recolhidas.

A Prefeitura do Ipojuca enviou comunicado sobre o novo aparecimento à Marinha, à Capitania dos Portos e à Secretaria de Meio Ambiente de Pernambuco. A Agência do Meio Ambiente do Ipojuca realiza monitoramento diário e pede reforço das autoridades neste monitoramento para além dos limites do município. O descarte do material, de acordo com a orientação da perícia criminal e ambiental da PF, poderá ser feito tanto em aterros sanitários como também em empresas consumidoras de borracha natural para reutilização do produto.

Primeiros registros

Os fardos começaram a aparecer nas praias de Alagoas no dia 24 de outubro de 2018, sendo a primeira ocorrência no Ceará registrada apenas dois dias depois. Caucaia, Camocim e Aracati foram os primeiros locais no estado. Em Fortaleza, os primeiros pacotes chegaram após cinco dias, na praia do Serviluz. Pesando cerca de 100 kg e identificados um mês depois pelo laboratório do Instituto do Meio Ambiente de Alagoas (IMA/AL) como sendo composto por borracha.

Origem - Navio Alemão

O professor Clemente Coelho Junior explicou que a origem das caixas ainda não é certa, apesar dos resultados obtidos em um estudo da Universidade Federal do Ceará. “Através de um modelo matemático de tecnologia reversa na qual, pegando cada ponto onde apareceram essas caixas, esses fardos de látex, [os pesquisadores] chegaram a aproximação de um navio que naufragou em meados de 1944, possivelmente um navio de guerra da Alemanha. Eles relacionaram [o aparecimento das caixas] ao navio chamado Rio Grande, que estaria levando esse material para alguma produção”, contou.

O estudo foi desenvolvido em outubro de 2019 por pesquisadores do Instituto de Ciências do Mar (Labomar) da Universidade Federal do Ceará (UFC). A equipe tentava explicar o surgimento de manchas de óleo que surgiram no litoral nordestino, a partir do estudo de dados históricos, físicos e biológicos. Após análise das informações, os estudiosos também chegaram a uma possibilidade para o surgimento das caixas de látex. O material estaria no navio alemão SS Rio Grande, que naufragou na costa do Recife em 1941. 

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